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BIOFLOCOS: Uma alternativa econômica viável para produtores de camarão em viveiros

Técnica de BIOFLOCOS:
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Por:
Luís Henrique Poersch, Marcos de Almeida, Carlos Augusto Gaona, Plínio Furtado, Geraldo Fóes e
Wilson Wasielesky Jr.
e-mail: lpoersch@mikrus.com.br
Universidade Federal do Rio Grande – FURG
Instituto de Oceanografia – Programa de
Pós-graduação em Aquicultura

A adoção da tecnologia de cultivo de camarões em bioflocos (BFT), a partir de adaptações em fazendas que trabalham com sistema tradicional de produção, pode ser uma alternativa técnica economicamente viável para a carcinicultura brasileira. Conforme relatado na edição anterior desta revista, a adoção de medidas de biossegurança e as adaptações na estrutura da fazenda para trabalhar com o sistema BFT permitiram a obtenção, com sucesso, de camarões produzidos em áreas infectadas pela mancha branca no Estado de Santa Catarina.

Embora haja domínio das técnicas de produção de camarões em sistema BFT, a adoção desta tecnologia, em geral, é vista com receio por parte do produtor, principalmente por envolver novos custos.

Com base nos dados de produtividade obtidos na Estação Marinha de Aquacultura da FURG nos últimos cinco anos empregando o sistema BFT em viveiros revestidos por geomembrana, foi realizado um estudo de viabilidade econômica considerando diferentes cenários que combinam densidades de estocagem (120 e 180 camarões/m²), conversão alimentar aparente – TCA – (1,2 e 1,5 kg de ração para obter 1 kg de camarão), peso final para despesca (10 e 12 g) e valor de venda do camarão (10,00 e 11,00 reais). O estudo levou em consideração também os investimentos necessários para a implantação de uma nova fazenda, ou seja, um investidor que vai montar uma fazenda de cultivo, e uma situação de adequação da estrutura de um empreendimento existente ao sistema BFT, considerando ainda os seus custos fixos e variáveis ao longo do ano, nos diferentes cenários. A projeção da análise econômica foi feita para um período de 10 anos e com os valores praticados no Rio Grande do Sul.

Para a análise econômica foram determinados:

● Valor Presente Líquido (VPL), que corresponde ao valor gerado ao longo do tempo, considerando uma taxa de juros de 6% (neste caso), menos o custo do investimento inicial. VPLs positivos indicam que o investimento é viável;

● Taxa Interna de Retorno (TIR), que se traduz no percentual de rentabilidade da atividade; e

● PAYBACK, que avalia em quanto tempo será recuperado o investimento.

 

Levantamento do Capital Investido para 

Na tabela 1 estão resumidos os gastos iniciais que um investidor teria para implantar um novo empreendimento, desde o projeto até a construção dos viveiros. Foram agrupados itens de custo comum e que, ao final, são somados aos gastos com aeradores em duas situações: uma com densidade de 120 e outra com densidade de 180 camarões/m2.

Tabela 1. Investimento inicial para implantação de um cultivo de camarões no sistema BFT * Não estão considerados os custos de produção.

Tabela 1. Investimento inicial para implantação de um cultivo de camarões no sistema BFT
* Não estão considerados os custos de produção.

Para os interessados em adaptar 1 ha de uma fazenda já existente, na tabela 2 estão descritos os gastos necessários para adequar a estrutura ao sistema BFT. O restante do material empregado no cultivo (aeradores, bandejas de alimentação, rede elétrica, geradores, equipamentos de qualidade de água, etc.) não foi computado na análise, já que fariam parte dos equipamentos empregados em uma fazenda com sistema tradicional.

Tabela 2. Investimento para adequação de 1 ha (3 viveiros de 3.300 m2) ao sistema BFT

Tabela 2. Investimento para adequação de 1 ha (3 viveiros de 3.300 m2) ao sistema BFT

Levantamento do Custeio da Produção

Como custos fixos foram utilizados os valores dos salários dos funcionários e os encargos sociais. Como custos variáveis foram considerados os valores de pós larvas, ração comercial (38%PB e 8%EE), kit para análises da qualidade de água (amônia, nitrito, nitrato, fosfato e alcalinidade) usados no laboratório, energia elétrica (aeradores e bomba de água), diversos (melaço de cana de açúcar, cal hidratada, probiótico, cloro em pó). Os custos fixos e variáveis do empreendimento para três ciclos de cultivo ao ano são apresentados na tabela 3.

Tabela 3. Custos fixos e variáveis do empreendimento para 3 ciclos/ano nos diferentes cenários

Tabela 3. Custos fixos e variáveis do empreendimento para 3 ciclos/ano nos diferentes cenários

Análises Econômicas

Relacionando o capital investido com o de custeio, em um espaço de tempo determinado, é possível calcular o PAYBACK, a TIR e a VPL. Os resultados das análises econômicas indicam que montar uma fazenda para o cultivo de camarões com tecnologia BFT é custoso, mas só não é viável (TIR negativo) quando temos apenas um ciclo de produção por ano, independentemente da densidade de estocagem ou peso final de cultivo. Já considerando dois ciclos de produção ao ano, a atividade se torna atraente (viável economicamente), principalmente quando se trabalha com a densidade de 180 camarões/m², onde a TIR foi de 30% e o período de retorno de três anos e meio (Tabela 4).

 

Tabela 4. Resultado da análise de viabilidade econômica de um NOVO empreendimento com tecnologia de bioflocos, com preço de venda dos camarões igual a R$ 11,00

Tabela 4. Resultado da análise de viabilidade econômica de um NOVO empreendimento com tecnologia de bioflocos, com preço de venda dos camarões igual a R$ 11,00

Partindo da adequação de um empreendimento já existente, os resultados da análise de viabilidade econômica mostram que a TIR, VPL e PAYBACK são melhores quando o camarão é comercializado com peso final de 12 gramas, independentemente da densidade de estocagem (Tabela 5).

Tabela 5. Resultado da análise de viabilidade econômica de um empreendimento com adequação ao sistema BFT (TCA de 1,2 para densidade de 120 camarões/m², e de 1,5 para 180 camarões/m²)

Tabela 5. Resultado da análise de viabilidade econômica de um empreendimento com adequação
ao sistema BFT (TCA de 1,2 para densidade de 120 camarões/m², e de 1,5 para 180 camarões/m²)

Quando se compara o número de ciclos ao ano, verifica-se que três ciclos de cultivo são mais atrativos, já que a TIR aumenta e o PAYBACK é reduzido, independentemente da densidade empregada.

Os resultados referentes aos custos fixos e variáveis, fluxo de caixa e saldo ano a ano em uma projeção de até 10 anos são apresentados nas tabelas 6, 7, 8 e 9.

Tabela 6. Dados de preço de venda, faturamento, produção, custos fixos e variáveis, fluxo de caixa e saldo ano a ano em uma projeção de até 10 anos

Tabela 6. Dados de preço de venda, faturamento, produção, custos fixos e variáveis, fluxo de caixa e saldo ano a ano em uma
projeção de até 10 anos

Tabela 7. Resultado da análise de viabilidade econômica de um empreendimento com adequação ao sistema BFT (TCA 1,2 para densidade de 120 camarões/m²)

Tabela 7. Resultado da análise de viabilidade econômica de um empreendimento com adequação
ao sistema BFT (TCA 1,2 para densidade de 120 camarões/m²)

Tabela 8. Dados de preço de venda, faturamento, produção, custos fixos e variáveis, fluxo de caixa e saldo ano a ano em uma projeção de até 10 anos

Tabela 8. Dados de preço de venda, faturamento, produção, custos fixos e variáveis, fluxo de caixa e saldo ano a ano em uma projeção de até 10 anos

Tabela 9. Resultado da analise de viabilidade econômica de um empreendimento com adequação ao sistema BFT (TCA 1,2 para densidade de 120 cam/m²)

Tabela 9. Resultado da analise de viabilidade econômica de um empreendimento com
adequação ao sistema BFT (TCA 1,2 para densidade de 120 cam/m²)

 

Com relação aos resultados referentes a densidade de estocagem percebe-se que a TIR de 180 camarões/m² com peso final de 12 g para dois ciclos é muito superior a obtida na densidade 120 camarões/m² com o mesmo peso final. Em função do número de ciclos e condições simuladas de cultivo para o peso final de 12g, se torna mais atrativo para o produtor decidir pela densidade de 180 camarões/m² em dois ciclos/ano, enquanto que para três ciclos/ano é mais interessante decidir pela densidade de 120 camarões/m², visto o período de retorno de 14 meses e o menor custo de produção (custos fixos + custos variáveis).

As Regiões Norte e Nordeste do país levam grande vantagem no processo de criação de camarões, já que o clima permite pelo menos três ciclos de produção ao longo do ano, além de menores custos de produção. No caso de empreendimentos no extremo Sul do Brasil o custo com ração e com pós-larvas são em torno de 30% mais altos devido ao transporte, já que as fábricas de ração e larviculturas comerciais se concentram na Região Nordeste do Brasil. Desta forma, os custos de produção na Região Nordeste devem ser mais baixos dos que foram aqui apresentados.

Os gastos com a produção logicamente dependem da localização do empreendimento, do consumo de energia elétrica, da densidade empregada e, principalmente, do conhecimento do sistema BFT e do manejo dos funcionários, já que deles dependem a melhor taxa de conversão alimentar, a melhor sobrevivência e crescimento dos organismos confinados. Conforme Teixeira et al. (2011), ao adaptar viveiros comerciais (7.800 m²) de cultivo de camarões de sistemas semi-intensivos para sistemas intensivos com tecnologia de bioflocos, obtiveram um custo de R$ 12,00/m², sendo que 45% foram relativos a impermeabilização dos viveiros com geomembrana de poletileno de alta densidade (PEAD). Segundo Teixeira et al. (2011) o custo referente a energia elétrica no primeiro ciclo foi de cerca de 10%, mas ao longo de três ciclos e com o aperfeiçoamento dos protocolos de cultivo e monitoramento dos níveis de oxigenação da água, foi possível uma redução para 5% do custeio total.

Estudos recentes mostram que a adoção de despescas parciais podem ser uma estratégia a ser utilizada, com o objetivo de fornecimento contínuo de camarão fresco a um mercado específico (camarões com peso médio de 10 gramas). Além disso, a despesca parcial possibilita a entrada de capital financeiro durante o cultivo. Com isso, diminuem-se os riscos normais de uma atividade de cultivo e reduz-se a imobilização do capital de giro, principalmente para a compra de ração, que corresponde a aproximadamente 50% do custo do cultivo.

Os custos do cultivo de camarão marinho com tecnologia de bioflocos são elevados se comparados ao sistema tradicional. No entanto, há um ganho em biossegurança, sobrevivência, taxa de conversão alimentar, produtividade e previsibilidade dos resultados da safra, de modo que a otimização do manejo de cultivo ao longo dos ciclos refletirá na minimização dos custos, tornando-o mais atrativo aos investidores e encurtando o período de retorno do capital investido nesse tipo de empreendimento.

Fragilidades da Análise Econômica

Atualmente estamos vivenciando uma forte crise financeira mundial e não é possivel garantir que o mercado brasileiro não seja atingido de maneira mais contundente. Aparentemente o mercado interno tem capacidade de absorver a produção nacional de camarões, mas não existe nenhuma garantia que os preços de venda se mantenham neste patamar ao longo de dez anos, como foi projetado na análise econômica. De qualquer forma, nos melhores cenários aqui apresentados, o investimento realizado na adoção do sistema BFT tem retorno em pouco mais de um ano, o que é bem vantajoso.

Conclusão

O cultivo de camarões em sistema BFT requer investimentos maiores quando comparado ao sistema tradicional, porém as análises econômicas indicam a viabilidade da adoção desta nova tecnologia. A alta produtividade gerada neste sistema permite retorno do investimento em 14 meses, desde que sejam produzidas 36 ton/ha/ano de um camarão vendido a R$11,00 o quilo, e um percentual de retorno próximo a 90%, o que é bastante atrativo. A ressalva que se faz está relacionada ao preço de venda do produto, que foi considerado constante ao longo de 10 anos e nem sempre o mercado se comporta de maneira generosa.

Além disso, o risco com desenvolvimento de doenças é menor, o aproveitamento da água é maior e o aporte de efluente fica significativamente reduzido.

Considerando que 10% da área de cultivo do país migrasse para o sistema de cultivo super-intensivo de camarões em meio aos bioflocos, a produção nacional passaria de 80 mil toneladas para 144 mil toneladas ao ano.

Portanto, se faz necessário demonstrar a viabilidade econômica da adoção deste novo sistema de produção (BFT).


Referências Bibliográficas:

TEIXEIRA, A.P.G; GUERRELHAS, A.C.B. Cultivo intensivo:
pode ser a solução para o aumento da produção da carcinicultura? Panorama da AQÜICULTURA, vol.21, nº124: Páginas: 34-39, 2011.
POERSCH, L.H., FÓES, G., KRUMMENAUER, D.,
ROMANO, L.A., WASIELESKY, W. JR. 2012. Bioflocos: uma alternativa para camarões saudáveis. Panorama da AQÜICULTURA, v.22, nº130, Páginas: 28-37.


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